Fundação Hildete Bahia homenageia docente negra e nordestina
Nome de criadora do Curso de Enfermagem da UFPel batiza instituição concebida para gestão dos funcionários, do atual PS, no novo Hospital
Mulher, negra, nordestina, aguerrida, assertiva e determinada na gélida e úmida Pelotas dos anos 70. Os atributos da enfermeira, professora e mestra em Educação soteropolitana Hildete Bahia da Luz, que ainda despertam preconceito e discriminação principalmente no Sudeste e Sul do País, não a intimidaram: seguiu firme no propósito e obteve êxito – comandar a criação do então Curso de Enfermagem da UFPel. Pelo enfrentamento de desafios na área da saúde há 50 anos, dominada por homens brancos; pela realização inaugural em 1976 (hoje, Faculdade); e por ser precursora na graduação de enfermeiros na cidade, a Prefeitura vai batizar uma nova fundação, cuja função será a gestão de pessoal do atual PS no Hospital Regional de Pronto-socorro (HRPS), com o nome da profissional.
Tramitação do PL na Câmara
De iniciativa do Poder Executivo, tramita na Câmara Municipal o Projeto de Lei (PL) destinado à instauração da instituição que acolherá os vínculos trabalhistas administrados, até a inauguração do HRPS, pela Associação Pelotense de Assistência e Cultura (Apac). Além de evitar rescisões e prejuízos salariais, entre outros, bem como assumir os recursos humanos – conforme o Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) assinado entre Prefeitura, Apac e os Ministérios Públicos do Estado (MPRS) e do Trabalho (MPT) no início de maio –, a Fundação Pública Municipal Hildete Bahia da Luz consistirá em justa homenagem à categoria graças à nomeação.
As Comissões de Orçamento e Finanças (COF) e de Constituição e Justiça (CCJ) do Legislativo emitiram pareceres favoráveis à mensagem. Nesta semana, antes da avaliação das emendas apresentadas pelos vereadores e da votação em plenário, haverá decisão dos membros da CCJ quanto à apreciação positiva do relator designado ao tema.
Médicos, técnicos e enfermeiros do PS atuarão no novo Hospital sob administração da Fundação Hildete. Fotos: Volmer Perez e Tobias Bernardo/Secom
A Administração Municipal faz deferência, reverencia a memória de uma mulher de luta", enfatiza a procuradora geral do Município, Cristiane Grequi Cardoso. "Hildete deixou um legado de grande relevância não somente na história da Universidade, mas também da enfermagem na cidade, reconhecida por coletivos de resistência e diversidade, do meio acadêmico e da sociedade civil", complementa.
Título de 'Professora Emérita'
O prefeito de Pelotas, Fernando Marroni, delegou à procuradora geral a incumbência de outorgar denominação representativa ao órgão. Por ocasião das providências, ao receber, no gabinete da Procuradoria Geral do Município (PGM), uma dos três filhos da docente, a também enfermeira Lígia Lopes, Cristiane lembrou que Hildete, sanitarista pioneira na defesa do sistema público, foi a primeira coordenadora do curso de Enfermagem e, depois, chefe de Departamento.
Sim, a nossa mãe era inovadora, líder nata, rigorosa, muito trabalhadora e bastante estudiosa", disse, emocionada com as recordações. "Em 2019, ainda viva, ela teve a honra de ser brindada com o título de Professora Emérita na cerimônia alusiva aos 50 anos da Universidade", acrescentou a filha, pelotense de nascimento.
Lígia fez questão de destacar a parceria profícua com a profissional Helena Maria. Adicionalmente, ambas concretizaram as façanhas de formular e estruturar a primeira turma de pós-graduação do segmento de saúde pública em Pelotas. "Outro feito inédito", observou, afirmando admiração pela mãe.
Crédito à colega Helena Rocha
Na edição de agosto de 2016 do Journal of Nursing and Health, periódico da Faculdade de Enfermagem da UFPel, a própria docente a menciona e narra todo o processo, desde o que ela denominou como "questões burocráticas", passando pela elaboração do projeto e aprovação junto ao Ministério da Educação e Cultura (MEC) até a concepção do currículo.
Eu convidei para trabalhar comigo a Helena Maria da Rocha Conceição. Juntas, começamos a redigir, e não foi nada fácil, pois iniciamos do zero; não tinha nada escrito", destacou Hildete, à época, quando atribuiu crédito à amiga e colega, atualmente residente na capital baiana.
Na sequência da foto de Hildete Bahia, procuradora comunica tributo à filha da professora – Fotos: UFPel e PGM/divulgação
Relato literal de preconceito
De acordo com a procuradora Cristiane, o registro do depoimento da principal responsável pelo estabelecimento da formação acadêmica em Enfermagem, no município, revela a declaração da maior dificuldade combatida com empenho e firmeza psicoemocional. E na década de 1970 – assinala Cristiane –, em que os movimentos antirracista, feminista, contra xenofobia e misoginia eram poucos e impotentes no Brasil, enquanto insurgiam com força nos Estados Unidos e em alguns países da Europa.
O único ponto negativo que considero da minha passagem pela Faculdade de Enfermagem foi a difícil aceitação dos outros grupos de professores das disciplinas básicas, pois era difícil para eles, que tinham o domínio do conhecimento na cidade, entender que 'podia' chegar uma pessoa, ainda por cima mulher, jovem, negra, nordestina e enfermeira, pois existia e ainda existe o preconceito", concluiu Hildete sobre toda a saga pessoal e profissional na Princesa do Sul.
Advinda de uma região em que as temperaturas ainda são altas o ano todo, a professora-enfermeira deixou entrever a coragem e a obstinação de suportar o rigor do inverno pelotense. "Me contaram que antes de nós vieram duas enfermeiras de Porto Alegre e que desistiram por causa do frio", comparou a homenageada, há dez anos, na publicação.
Perfil profissional da docente
Natural de Salvador (1° de março de 1945), Hildete Bahia da Luz morreu no dia 7 de janeiro de 2024 em Maceió, Alagoas. Recém-formada na capital da Bahia, atuou no planejamento de saúde do Estado de São Paulo, junto à Organização Mundial de Saúde (OMS), e lecionou na Faculdade de Medicina de Jundiaí (FMJ), onde foi diretora do Curso Técnico de Enfermagem.
A profissional esteve pela primeira vez no município em junho de 1975. No auge da estação mais gelada e no ápice da umidade de uma tarde chuvosa, conheceu a UFPel e, após hesitar em razão do clima e considerando mais a experiência consolidada, decidiu assinar contrato de trabalho. Em seguida, retornou ao Hospital Anna Nery, no Rio de Janeiro, para realizar mais uma pós-graduação. Segundo a própria fundadora do Curso, especializou-se em Metodologia do Ensino e da Pesquisa, a fim de idealizar a primeira Faculdade de Enfermagem de Pelotas.
A conclusão do mestrado ocorreu em Porto Alegre, na área de Educação, porém não há registros de data, instituição de ensino e outros detalhes biográficos. A oportunidade do doutorado surgiu e a docente recusou-a, conforme a explicação no periódico: "porque não queria fazer em Santa Catarina".
Entre salas de aula, departamentos, hospitais, estágios e gabinetes locais, Hildete Bahia conseguiu, durante dois anos, licenciar-se para ser assessora na reitoria de uma universidade federal de Maceió e, depois, na cidade de Recife. "Viajava bastante, porque eu gosto de estar sempre buscando novos conhecimentos", contou no ano de 2016.